Sexta-feira 29 Novembro 2013

Trouble Will Find Me


Quem conhece The National e já provou da sua mais profunda essência, sabe que a banda e as suas dezenas de canções vivem numa zona de conforto carregada de subtileza presente nas letras e nos acordes, a que nenhuma outra é capaz de chegar.
Em 14 anos, surgiram variados álbuns que assumiram um panorama clássico e revelaram uma assinalável evolução. O seu percurso marcado por um vincado distanciamento da música a que nos acostumam os tempos presentes, começa a tornar-se evidente no intenso Alligator que introduz uma variedade maior em termos instrumentais. Mais tarde, Boxer inicia a caminhada num jogo de ditames e problemas pessoais (e sociais) bem ao jeito de Matt, o vocalista, adivinhando a entrada num patamar superior de maturidade que se revela, principalmente, nas letras soberbas que daqui em diante haviam de surgir. High Violet vem introduzir os 5 homens de Ohio num altíssimo posto de responsabilidade: eis que se sobe a fasquia de um modo colossal. Estavam, assim, totalmente impedidos de falhar no álbum que anunciariam para o presente ano de 2013. Os fãs pediam por uma continuidade da tremenda evolução em termos de orquestra que compunha um trabalho caracterizado por uma carga emocional inegável, cheio de sentimento e sinceridade.
Surge assim o tão aguardado Trouble Will Find Me. um álbum que vem confirmar que quem é bom, nunca desilude. Escrever sobre este conjunto de 13 faixas que atinge a aparente difícil tarefa de reforçar a identidade única da banda, torna-se ainda mais apetecível quando na memória está bem presente o concerto da sua apresentação no nosso país, no passado dia 21.
Inicia-se assim a jornada de um misto de músicas caracterizadas pela simplicidade e, por outro lado, de momentos em que se assiste a uma expansão sonora que culminam em versos sofridos até ao extremo do seu significado, revelando que o nome dado ao álbum não foi escolhido ao acaso. O espírito melancólico deixado suspenso em High Violet, parece retomar-se nas primeiras faixas: I Should Live in Salt e Demons. As duas se mostram como das mais trabalhadas no álbum, e as duas parecem querer levar-nos numa viagem ao mais profundo da nossa própria alma, em jeito de uma procura do lado mais solitário e sonhador da mesma. Assiste-se, de seguida, a uma mudança de ritmo claramente bem recebida: Don’t Swallow the Cap, mais acelerada que as anteriores, traz a confirmação de que Trouble Will Find Me está longe de ser um álbum depressivo. Ainda só descritas 3 músicas, e já nos encontramos claramente num ponto em que nos distanciamos da rotina fútil do nosso dia-a-dia, e começa já a surgir a vontade de uma mudança interior, enquanto somos assaltados por riffs que não deixam a desejar, e por uma voz inconfundível, a que muito se deve o carácter também inconfundível da banda, Sea of Love é presença obrigatória no top ten de qualquer apreciador de The National, uma ode maquinal em que assistimos à tomada de consciência que constitui a moral principal do álbum: a existência humana consiste em muito mais do que numa constante ampliação do lado problemático da vida. Heavenfaced e This is The Last time são seguramente capazes de roubar uma lágrima até aos corações mais frios: entre vozes femininas, acompanhamentos soberbos no piano e pequenos acordes em tempos distintos, chegamos ao auge desta composição musical. O disco é fechado por um ponto melódico que embora simples, se denota muito rico: Hard to Find. Este é provavelmente o melhor desfecho que a banda escolheu ao longo de todo o seu trabalho.
The National junta-se assim, indiscutivelmente, ao conjunto não muito grande de bandas a que o tempo e o crescimento a todos os níveis só faz bem. O último trabalho da banda leva-nos a querer abrandar o tempo, deixar a magia entrar-nos pelo espírito dentro e ter a certeza que só por coisas destas já vale a pena viver.