Quarta-feira 16 Outubro 2013

The Suburbs


Quando se está longe escreve-se melhor. É a ética da vida, por entre as saudades e as lágrimas que se colecionam na caixinha de música que bombeia toda a energia para continuar. Diz-se difícil, diz-se fácil. Há a família, há o amor, há a amizade. E depois há a música. A música que já roubou sorrisos e momentos eternos. Há-de a vida dar tantas e tantas voltas sem conseguir fazê-lo longe da música.
É à janela que escrevo sobre este álbum. Chão de chuva, vela de emoção. O cenário quase tão perfeito quanto este álbum: The Suburbs. Não serão precisos nomes, nem adjetivos. Parece estar na minha playlist desde sempre e só hoje escrevo sobre ele.
Os Arcade Fire abraçam um som rebelde, um rock alternativo e vigoroso que só os putos do indie sabem fazer. Constantemente se ouve falar na música do passado, de Bowie a Waits, de Morrissey a Jagger, de tudo o que foi, ainda é e há-de sempre ser a história de um rock fabuloso com diversas vertentes. E os Arcade Fire tiveram essa sorte, a sorte de ter alguém tão bom com capacidade de os fazer evoluir e criar cada vez mais e mais música autêntica.
É um álbum de 2010 com um passado gigantesco. De entre melodias e carrosséis carregados de vida, eis um The Suburbs com muito que se lhe diga. É viciante do início ao fim, sem que nos apeteça saltar uma música mas sim ouvi-las várias vezes.
A primeira faixa é a descrição perfeita do que se segue. De Ready to Start nem vale a pena falar. Modern Man traz-nos um groove melancólico e Rococo esconde-se na palavra-chave que dá o poder à musica. Empty Room é das mais alegres, com um violino e sons femininos que nos tiram do dia-a-dia de um álbum e se complementam da melhor maneira com a voz de Win em Half Light II.
Suburban War é das minhas favoritas, não pelo sentimentalismo da letra mas pela simplicidade com que criaram uma melodia que dificilmente sai do ouvido. É uma música com várias partes e todas elas se distinguem pelo poder de um só riff. É com músicas assim que nos vemos a sorrir sozinhos, longe da realidade que nos critica.
Month of May é inesperada e roça os limites de um punk bastante sólido. Só vem confirmar que os Arcade Fire podem ser bons em qualquer vertente do rock. Wasted Hours é mais uma melodia de muito bom gosto e We Used to Wait, a que me fez querer ouvir The Suburbs, retrata, talvez, a sua grande obra. O piano, o riff caloroso da guitarra, o ritmo marcado, o groove a querer comandar, a voz rouca de Win, tudo isso em uníssono com as vozes de Régine e de Sarah.
Para quem é amante dos The Smiths ou dos Tindersticks, não há melhor como Sprawl I para nos fazer recuar no tempo e lembrar os devaneios de Morrissey e de Staples em torno de uma melancolia negra e incrivelmente bonita. Longe da poesia, Win escondeu-se na verdade e construiu um álbum que espelha os verdadeiros Arcade Fire nas mais diversas formas.
Carregado de energia e de diversos instrumentos, traz-nos a silhueta de um rock puro, rasgado, emotivo e especialmente único, de se ouvir embrulhado no cobertor, de copo meio-cheio, numa viagem de ambição. É tão bom que me acompanha diversas vezes, fazendo-me sempre lembrar, com um sorriso esboçado, a beleza de um regresso a casa.