Sexta-feira 03 Agosto 2012

Ópera do Malandro


Há no Brasil um dizer que reza assim: “ser encornado pelo Chico não conta!” ou “todo o homem é potencialmente corno diante de Chico Buarque”.
Não me sendo possível atestar a origem desta pérola da sabedoria popular canarinha, divirto-me a supor que certo marido, entre um chope fresquinho e a companhia dos seus camaradas, se terá resignado ‘aos factos’, desde logo percebendo o deslize da sua cônjuge, não fosse aquele o artista mais consensualmente amado da MPB.
E é isto: Chico Buarque faz parte do código genético brasileiro! Os homens admiram-no (coisa rara!) e no coração das mulheres há, para ele, um lugar cativo. Com os seus ‘olhos cor-de-mar’ (indefinidamente verdes e azuis), na terra do samba e do futebol, o Chico é o maior!
Desengane-se, porém, quem no Chico vir apenas mais um Casanova de praias solarengas. Em ‘Ópera do Malandro’, o cantor/compositor paulista traça o perfil de um povo e do seu país, passeando-lhe sobre as feridas a mão com trato.
Neste exercício (de todo pouco apolítico) converge a sacanice dos que fogem sem pagar a cachaça com o amor sem preço das mulheres que esperam. Cabe nele também o jogo de cintura que senta à mesa dos botequins o ladrão e a polícia; a errância, os afetos, o amor; do pé que bate no chão ao som do pandeiro até às histórias das ‘meninas da vida’, com todos os seus sonhos e aspirações, tudo é tratado com fina crueza e sensibilidade, sem espaço para guerrilhas sexistas.

Um aparte:
Vi esta obra (entretanto levada à cena) no Coliseu dos Recreios. Há, no espetáculo, uma cena em que certa mulher, acusando a natureza mais ‘fugidia’ do seu amado, desagua todas as emoções num clamor do tipo ‘independentemente de tudo, eu sei que vou estar sempre à tua espera’…
Houve no público reações efusivas. Lembro-me de ter comentado algo do género:
– O pessoal adorou mesmo esta parte!
E de receber por parte de uma amiga, com sorriso malandro, a seguinte resposta:
– Não sei… eu só ouvi os homens…
Assim foi, de facto! E rimo-nos baixinho, como obriga neste tipo de espetáculos o bom-tom…

Chico Buarque tem o condão de criar ‘obras abertas’ – aquelas em que cada um é capaz de se rever como bem o sentir! Não toma partidos, não dá lições de moral. Conta uma história que oscila entre o riso aberto e a mão fechada contra o peito. Sem sensacionalismos, como a vida é, realmente!