Quarta-feira 11 Abril 2012

Murder Ballads


Como se faz a crítica a um álbum de Nick Cave? Sem chapéu, obviamente, porque o respeitinho é muito bonito!
‘Murder Ballads’ (1996) é um daqueles álbuns de se lhe tirar o chapéu! – O nono de uma frutuosa relação de Cave com os Bad Seeds. Depois de ‘Let Love In’, Cave tinha duas letras sobre assassínios. A ideia de conceber um álbum de murder songs partiu daí e rapidamente ganhou expressão.
Trata-se de uma narrativa romântica que veste o fato dos assassinos em série e se passeia entre o sinistro e o cool. – Um território onde Cave se move com segurança, qual menino em loja de guloseimas. As letras, de inegável qualidade literária, embalam num mesmo berço temas como o estupro, a violência e o amor psicótico. Tudo pontuado com fina ironia e alegre sarcasmo, particularmente exacerbado no genial ‘The Curse of Millhaven’.
O sucesso chegaria logo, bem como o estatuto de crooner from hell, rótulo do qual Cave sempre fugiu. O dueto com PJ Harvey em ‘Henry Lee’ puxou a culatra; ‘Where the wild roses grow’, com Kylie Minogue, fez disparar os holofotes da fama na direção de Cave, valendo-lhe uma nomeação da MTV para Best Male Artist.
Para Cave, porém, era-lhe indiferente a opinião da MTV. Escreveu assim uma deliciosa carta ao canal de música (http://www.nick-cave.com/_mtv.php) agradecendo as honrarias, pedindo contudo que lhe fosse retirada a nomeação. Por respeito à sua arte, à sua ‘Musa’, que ele sentia dever proteger “de influências que pudessem afectar a sua frágil natureza”.
‘Murder Ballads’ fugiu à fama por vontade própria e foi brincar com o seu pistolão prateado. É, por todas as razões, um álbum soberbo.